Então, pensando que já expliquei como iniciei essa história de participar de uma ação social ainda bem informal, e que a "sede" de tudo isso é a Biblioteca Liege Dantas Figueiredo, posso agora contar coisas que ocorreram nas três vezes em que estive no "Piau" ( nome que carinhosamente os moradores deram para São José da Vereda/Bahia).
Na primeira vez, estava completamente cega para o que iria encontrar. Recebi o convite do Ruy, me propus a realizar alguma atividade com os professores da comunidade e me joguei na aventura.
As atividades previstas para aqueles dias consistiam em: uma palestra sobre câncer de próstata (com um médico amigo do Ruy) para a comunidade na sexta-feira à noite, um encontro de formação de professores comigo e as pedagogas Valéria e Cândida (amigas do Ruy que conheci nesta ocasião), na parte da manhã de sábado, e um Festival de Poesia elaborado pelos alunos e professores da escola local com a participação especial da minha amiga Ceyla contando histórias na praça, na parte da tarde.
Ao chegarmos lá, na quinta-feira, propusemos uma sessão extra de contação de histórias para as crianças na sexta à noite,na praça, enquanto rolava a palestra para os adultos. Perguntei se alguém tinha um violão para que eu e Ceyla intercalássemos - uma história e uma música - embora o meu repertório infantil seja um pouco limitado. Aliás, meu repertório inteiro, atualmente é muito limitado.
Deixamos uma papelzinho colado na porta da Biblioteca na sexta-feira pela manhã avisando que faríamos a contação de histórias às 19 horas, na praça.
No horário marcado nos dirigimos para a praça e ao dobrarmos a esquina vimos a praça cheia de crianças, muitas crianças mesmo.
A Liliane, uma das pessoas que cuida e trabalha na Biblioteca, tinha conseguido o violão, microfone e caixas de som!
Começamos nossa noite com a Ceyla contando uma história para um público infantil com suas melhores roupas, cabelinhos penteados e muito entusiasmo.Era uma mistura de timidez com agitação que nos deixava com ares de artistas.
Depois da Ceyla contar duas histórias, não me perguntem quais, porque a nossa agitação era tanta que acho que nem ela se lembra, chegou o momento de tocar e cantar alguma coisa.Perguntei para as crianças se alguma delas gostaria de cantar, para que eu pudesse conhecer o repertório delas. Várias crianças levantaram as mãos e convoquei uma delas para vir ao "palco".
-E então, como é seu nome? A criança respondeu, eu a cumprimentei e solicitei as palmas.
- Que música você vai cantar?
Sem titubear ela me responde:
- O Créu!
Fiquei apatetada, sem saber o que fazer. Não queria desrespeitar a escolha musical dela, mas gostaria de incentivar outros estilos, mais infantis.Pedi desculpas e perguntei se ela não gostaria de cantar uma música de criança.Ela disse que não sabia e então perguntei se eu poderia tentar outra criança e nesse momento várias outras gritavam e levantavam a mão.
Chamei outra, e essa já veio anunciando que ia cantar uma música:
- Vou cantar o "Arranha"!
Eu não sabia do que se tratava, mas olhava para a platéia e via que algumas mulheres presentes sacudiam negativamente a cabeça com os olhos arregalados para mim, indicando que não permitisse a tal da música.
Delicadamente,perguntei se eles se importavam de ouvirem algumas músicas diferentes que eu conhecia.Por sorte eles acolheram a idéia, e parti para a apresentação de algumas músicas brincadas que agradaram.
Eu tenho noção de que eles queriam usar o microfone, ter voz, mostrar o que sabiam e que a atitude mais adequada talvez fosse escutar e reconhecer a importância de dar uma oportunidade de visibilidade a cada uma das crianças que se dispuseram a cantar "Créu" e similares, mas simplesmente não pude e não quis dar espaço para músicas que reforçam idéias e valores que não considero como importantes para a infância.Reforçar essas idéias tendo acabado de chegar ali, seria estragar o trabalho antes mesmo de começar.Que me perdoem os que pensam diferente de mim, mas "Créu"(e equivalentes) para crianças, nem pensar.É roubar da infância a delicadeza e o tempo para que descubram coisas bem mais bonitas em outras fontes.
Depois de duas ou três músicas era a vez da Ceyla contar outra história. E assim seguimos por uma hora , uma hora e meia, até que resolvemos chamar as crianças para contarem histórias que elas sabiam.
Várias crianças foram ao microfone e contaram histórias curtinhas e todos aplaudiam felizes por verem seus colegas, com status de "artistas", falando ao microfone.
Até que surgiu um menino para contar histórias que merece um relato especial, que tenha como título o seu nome.
Adorei!!!
ResponderExcluirParabens Tia Monica, por criar esse blog, mais obrigada por ter sido você, porque deixou tudo com mais sentido... como nenhuma outra pessoa deixaria!
E quero lhe comunicar que esses projetos sao muitos importantes para mim, pois faz com que sempre eu seja uma pessoa melhor, mais nobre, e que adoro sempre ajudar neles, por isso, conte sempre comigo!
Beijos!
Bruna.